Como Shakira se protegeu das comparações com Madonna e Lady Gaga em Copacabana
Shakira subiu ao palco do show em Copacabana no último sábado (2) com atraso de 1h20 e encontrou o público impaciente. Seu pai estava internado no mesmo dia do maior evento de sua carreira enquanto mais de 2 milhões de pessoas estavam ansiosas na areia à sua espera, mas nada disso afetou o que ela havia se proposto a entregar: um show que comunicava a sua verdade sem tantos artifícios.
Copacabana se tornou, nos últimos dois anos, o palco escolhido por estrelas globais que desejam transmitir algo além do repertório musical. Madonna em 2024, Lady Gaga em 2025, Shakira em 2026: três artistas com intenções distintas e especificidades que atenderiam unicamente aos objetivos de marca de cada uma delas.
Madonna cumpriu a missão de inaugurar o evento e fez o que sabe fazer melhor que ninguém: entregou uma performance artística provocativa que desafia as expectativas, forçando o público a reagir de uma forma ou de outra. Sua intenção não era agradar, mas sim chamar atenção.
No ano seguinte, Lady Gaga trouxe uma abordagem diferente, com apelo teatral, estética impactante e emoção construída com precisão cênica. Cada detalhe era calculado para criar uma experiência que transcendia a música.
Shakira, por outro lado, não se encaixou em nenhuma dessas definições. Não subiu ao palco para chocar ou para criar uma obra de arte. Ela cantou e dançou, convidando as pessoas a fazerem o mesmo.
Madonna e Gaga criaram experiências a serem contempladas tanto por quem estava em Copacabana quanto por quem assistia pela TV, enquanto Shakira proporcionou uma experiência para ser vivida, com falhas técnicas que incomodaram quem acompanhava à distância.
Madonna, Lady Gaga e Shakira expressaram a si mesmas
A diferença não está na qualidade, mas na intenção de cada marca. As três entregaram exatamente o que própria identidade pedia. Shakira fez um show com amigos como Anitta, trouxe Caetano Veloso em Leãozinho, dizendo que canta essa música para o seu filho dormir, e Maria Bethânia em um dueto emocionante.
Ela contou ainda com a bateria da Unidos da Tijuca, com os dançarinos do Complexo da Maré em Waka Waka, vestidos com as cores do Brasil, e Ivete Sangalo repetindo o dueto de País Tropical que as duas fizeram no Rock in Rio de 2011. Ninguém estava ali por acaso e todos reforçavam o posicionamento de conexão com o Brasil.
Foi isso que a protegeu de qualquer comparação com as artistas anteriores. O objetivo não era registrar clipes virais, era comunicar: eu conheço vocês o suficiente para convidar quem vocês amam para dividir o meu palco. São artistas que as pessoas reconhecem como parte de suas vidas, assim como a própria Shakira reconhece.
Obrigada à rainha Anitta, ao Caetano, à minha querida amiga Ivete, à Maria Bethânia, à Unidos da Tijuca e ao Dance Maré por me acompanharem no palco.
Ela não se posicionou como uma artista que vem ao Brasil para se apresentar, mas veio se apresentar como parte desse Brasil que ela já conhecia tão bem. Em um dos discursos, saiu em defesa da luta das mulheres com uma afirmação de conexão genuína:
Sabiam que no Brasil tem mais de 20 milhões de mães solteiras que precisam lutar todos os dias para sustentar sua família? Eu sou uma delas.
O show em Copacabana consolidou um ciclo de carreira inteiro de uma artista que utilizou a América Latina não meramente como um mercado, mas como um território de pertencimento. E aqueles que acompanharam à distância, reconheceram que o show foi muito maior do que qualquer erro operacional.
O texto de agradecimento e reconhecimento das próprias vulnerabilidades
Passado o show, Shakira fez questão de compartilhar um texto que muitos artistas hesitam em escrever, começando por reconhecer as dificuldades antes de celebrar a conquista histórica:
Mesmo que o dia tenha sido difícil para muitos de nós, fomos celebrar a vida do jeito que ela é, com seus acertos e imperfeições.
Essa frase reconhece os desafios, o dia pesado e a imperfeição do evento sem se vitimizar, sem pedir desculpas por algo que não foi culpa dela e sem deixar que o erro se tornasse o foco da narrativa. Encontrar esse equilíbrio não é tarefa simples.
Muitos optam por ignorar quando as situações não saem conforme o esperado ou transformam isso em um pedido de desculpas com uma dimensão maior do que deveria ser, perdendo o foco do que realmente importa. Mas Shakira nomeou a situação e seguiu em frente, como sempre fez.