Por que o Canva escolheu logo o Agostinho Carrara para reforçar quem é seu público-alvo?

Antes mesmo de começar, a campanha já estava gerando burburinho. Perfis no Instagram postaram fotos de uma gravação com Agostinho Carrara, o táxi amarelo e a Vila Três, gerando questionamentos: Era a volta do seriado A Grande Família na Globo ou um spin-off? 

Por que o ator Pedro Cardoso, que saiu da emissora de forma polêmica, estaria de volta? E a resposta estava no Canva.

Horas depois, uma propaganda de 4 minutos mostrou que o vazamento foi intencional, orquestrado em parceria com os próprios perfis que publicaram. A campanha começou antes da veiculação, e a repercussão imediata foi o primeiro sinal de que o Canva sabia exatamente o que estava fazendo.

A parceria foi feita com o canal, que detém os direitos, e não com o ator, que saiu da emissora em meio a declarações controversas sobre seu trabalho. Por isso o retorno gerou ainda surpresa.

Por que Agostinho Carrara e não outro nome conhecido?


Agostinho não foi escolhido por estratégia de nostalgia. Ele representa o usuário do Canva em pessoa: o empreendedor brasileiro que se vira como pode, que não tem know-how mas tem garra, acumulando funções de marketing, finanças e vendas em seu próprio negócio. 

Na campanha, o personagem volta como coach, influenciador e trader, criando a Carrara Modas na plataforma, com direito a identidade visual, cartões de visita, site, perfil em rede social e até um pôster de banheira. Enquanto isso, o público que vê o personagem desenvolvendo uma marca do zero com descrições simples que explica o que eles mesmos poderiam fazer. 

Essa diferença é o que separa uma campanha de produto de uma campanha de marca. Antes dele, Xuxa, Érick Jacquin e Gracyanne Barbosa já haviam sido o rosto das publicidades do Canva, e o que chama atenção é que nenhuma dessas escolhas foi feita para conquistar designers. 

O objetivo aqui é se conectar com quem nunca teve acesso às ferramentas que os designers usam, sem medo do risco de parecer brega ou popular demais, porque esse público é exatamente quem o Canva deseja alcançar.

O que os críticos especializados não entendem sobre o crescimento do Canva


Os designers têm criticado a plataforma há anos. Com o avanço da IA, as críticas só aumentaram em relação a questões sobre qualidade, desvalorização do trabalho criativo e uma democratização que nivela por baixo. O debate faz sentido para eles, mas não para o Canva e muito menos para o público-alvo da plataforma.

E a resposta não veio com argumentos técnicos. Não trouxe estudos de eficiência, discursos de como impacta a vida do empreendedor brasileiro, provas de como atua na geração de oportunidades ou parcerias com profissionais do mercado para validar sua ferramenta perante o nicho que a rejeita. Foi exatamente na direção oposta do que se espera, reforçando todos os estereótipos que esses especialistas apontam.

A crítica especializada existe em um determinado mercado, mas o crescimento do Canva acontece em outro. Um em cada nove internautas brasileiros usa a plataforma todo mês. Duzentos milhões de vídeos foram criados no país. E a escolha de Agostinho Carrara para lançar o Canva IA 2.0 é a declaração mais clara possível de qual desses mercados a empresa decidiu abraçar.

E a lição que fica é que uma marca que sabe quem é seu público-alvo não precisa convencer quem nunca vai ser.