Como a Havaianas entrou no universo de O Diabo Veste Prada 2?
A Havaianas é uma sandália de borracha que em algum momento da história decidiu que pertencia ao mesmo universo de Paris e Milão, e o mercado concordou sem pedir explicações.
Não sabemos como isso aconteceu tecnicamente, mas o movimento foi de uma marca brasileira que entrou no contexto de O Diabo Veste Prada 2 sem ninguém questionar sua presença.
Essa parceria mostra um pouco sobre como marcas e profissionais podem usar cultura pop para entrar em conversas que originalmente não eram deles.
Havaianas está bombando em Milão e ninguém achou estranho
A Havaianas lançou a coleção Puffed em parceria com O Diabo Veste Prada 2 e ativou a campanha simultaneamente no Rio de Janeiro, Paris, Londres, Madri, Milão e Nova York. A linha traz modelos com volumes mais evidentes e tiras acolchoadas, uma evolução visual que expande a linguagem do produto sem abandonar o que o torna reconhecível globalmente.
O filme é referência de moda e comportamento desde 2006 e concentra exatamente o tipo de atenção que a Havaianas precisava no circuito internacional. A campanha inclui ativações em pré-estreias, espaços temáticos e ações com criadores de conteúdo, com o slogan "tira o salto, vai de Havaianas".
A estratégia da Havaianas é entrar no território novo sem avisar que está entrando
A Havaianas não precisa de apresentação no Brasil, mas o desafio do exterior é diferente. No circuito de moda global, a intenção é fortalecer sua entrada no mercado de luxo sem precisar construir sua credibilidade do zero em territórios onde ainda não tem presença consolidada, seja em desfiles ou editoriais internacionais.
Sua decisão estratégica não é gritar aos quatro ventos que está se tornando uma marca premium ou pedir para ser levada a sério em novos mercados. A nova campanha de lançamento deixa a associação com o filme fazer esse trabalho.
![]() |
| Coleção Puffed com tiras acolchoadas |
É isso que acontece quando a referência escolhida para a associação de marca já tem legitimidade no território que você quer entrar: a credibilidade transfere antes de qualquer questionamento.
A Havaianas chegou se comportando como se sempre tivesse sido de Paris
A execução simultânea em todos os mercados, do Rio de Janeiro e Paris, se comporta como se já pertencesse a eles. As ativações físicas com ambientação do filme, as ações em pré-estreias e os conteúdos com criadores completaram o ambiente antes do mercado ter tempo de processar se fazia sentido. A percepção que se instalou foi de pertencimento natural.
![]() |
| O Diabo Veste Prada 2 em loja da Havaianas |
A marca entrou na conversa de moda global usando a entrada que o filme já tinha construído, e o mercado processou os dois juntos antes de ter tempo de se importar com o fato de que a personagem Miranda Priestly jamais usaria uma Havaianas em qualquer contexto.
Ninguém avaliou a coleção Puffed e concluiu que era alta costura (não temos a menor qualificação para esse julgamento e provavelmente o mercado de moda também não perdeu tempo com isso), mas o que aconteceu foi que a marca apareceu no contexto certo, com o produto certo, no momento certo, e a leitura de que pertencia ali chegou antes de qualquer análise racional.
A estratégia de expansão da Havaianas com O Diabo Veste Prada 2
O movimento de expansão da Havaianas nos territórios estratégicos está em manter o produto reconhecível enquanto amplia sua linguagem visual. A linha Puffed não tentou ser o que a Havaianas não é porque ele apenas se desmembra em uma direção que conversa com o universo fashion sem abandonar a origem do produto popular brasileiro.
Essa distinção é o que separa o movimento de reposicionamento forçado. A marca entra no território de evolução, não de reposicionamento, e esse movimento é o que o mercado melhor aceita sem grandes resistências.
Os resultados imediatos foram cobertura espontânea nos mercados internacionais, circulação em editoriais fora do Brasil e presença na conversa de moda global durante o ciclo de atenção do filme. Se vai se sustentar no longo prazo depende do que a marca faz depois que essa atenção passar, de quais serão as suas próximas jogadas.
Mas começar bem em território novo sem pagar o preço de anos de construção é exatamente o que Marketing de Associação bem executado entrega, e a Havaianas entregou.
Marketing de Associação: chegar junto de quem já tem a entrada
Associar uma marca a algo que o público já decidiu que é relevante é a mesma estratégia de quando uma cerveja patrocina show de rock, quando uma academia coloca o nome numa maratona ou quando uma sandália brasileira aparece na semana de moda de Paris ao lado de um clássico do cinema sobre o universo fashion.
O filme já tinha o público, o repertório e a legitimidade no circuito de moda. A Havaianas chegou junto e o público processou os dois ao mesmo tempo, aproveitando o timing para se enquadrar na atenção que o mundo inteiro estava dando ao conteúdo nos cinemas.
É, inclusive, o mesmo movimento que qualquer marca ou profissional pode executar sem precisar do orçamento da Havaianas. A associação com temas de grande repercussão é uma tendência que usa a atenção que outra coisa já conquistou para entrar em territórios onde você ainda não tem credibilidade própria.
Como fazer Marketing de Associação sem perder a sua própria identidade de marca?
Marketing de Associação com temas de grande repercussão funciona quando a marca identifica uma janela de atenção e entra nela com o produto e ativação preparados de modo prévio. Não dá pra ser baseado em oportunismo de última hora. O timing precisa ser calculado sobre quando e como aparecer dentro do contexto em movimento.
A diferença entre os dois é que oportunismo parece forçado, seja quando todas as marcas estão seguindo pelo mesmo caminho ou quando a identidade da marca não tem nada a ver com o potencial parceiro. No caso da Havaianas, tudo isso foi preservado. Trata-se de uma marca convencional, construída em cima de consistência, acessibilidade e brasilidade reconhecida globalmente.
Usar Marketing de Associação com um clássico de moda internacional poderia ter criado uma incoerência entre o que a marca é e o território que estava tentando entrar. Não criou porque a Havaianas levou a sua identidade para a campanha. A sandália continuou sendo sandália casual, inclusive no mote da campanha: "Tira o salto, vai de Havaianas".
Quando o Marketing de Associação funciona e quando vira piada?
O mercado já entendeu que associar conteúdo a temas em alta captura atenção sem precisar construir audiência do zero. O problema é que a maioria das tentativas fica em um de dois extremos: a conexão é tão vaga que ninguém percebe, ou é tão forçada que vira piada.
Aquele clássico post "o que a série X ensina sobre liderança" que todo mundo odeia porque todo mundo está fazendo igual. É um formato tão desgastado que virou símbolo de conteúdo corporativo sem criatividade.
O que a Havaianas fez foi diferente porque a conexão entre produto e universo do filme não precisava de explicação. Sandália e moda têm relação direta, não é uma collab analogia forçada. Essa naturalidade é o critério que separa Marketing de Associação bem executado de oportunismo mal disfarçado.
E é o critério que qualquer marca ou profissional pode usar antes de publicar qualquer coisa.
Estratégia para Marcas: Use o tema em alta como contexto, não como desculpa para aparecer
Marcas que querem usar Marketing de Associação no conteúdo de redes sociais precisam fazer uma pergunta antes de publicar: a conexão entre o tema em alta e o que a marca oferece é óbvia para quem vai ver, ou só para quem criou?
Se a equipe precisa explicar internamente por que o produto tem a ver com aquele filme, música, meme ou momento cultural, a conexão está forçada, e o público vai sentir antes de terminar de ler. Talvez ele nem comece a ler.
O movimento que funciona é quando a marca tem um ponto de vista sobre aquele tema em alta que só ela poderia ter, porque vem da perspectiva genuína do que faz e do público que serve.
Isso não significa que a conexão precisa ser óbvia para todo mundo, significa que precisa ser óbvia para o público certo. Nicho que encontra o ângulo certo dentro de um tema de cultura pop alcança com muito mais precisão do que marca genérica tentando falar com todo mundo ao mesmo tempo.
Estratégia para Carreiras: Como entrar em conversas em alta sem parecer estar desesperado por atenção?
Profissionais que usam temas de cultura pop para criar conteúdo caem no mesmo risco. A versão que funciona é quando o mote da sua comunicação profissional tem um ponto de vista onde aquele tema se enquadra.
Sua estratégia de comunicação deve listar os territórios onde ele entra e saber exatamente quais são os que não faz sentido entrar, com base no público que busca alcançar. Não funciona quando ele usa um tema distante só como desculpa para entrar nos assuntos do momento.
O critério prático é: a estratégia de abordagem deve ser planejada antes de entrar em qualquer tema em alta, não depois. O profissional que primeiro identifica o que tem a dizer sobre o próprio trabalho e depois encontra os temas culturais que servem como entrada para essa conversa.
Quem define o tema em alta e depois tenta encaixar o que faz está fazendo o movimento ao contrário, e o resultado vai parecer exatamente o que é: um conteúdo forçado.


