Hobbies no currículo: por que o cotidiano está ficando performático?


Tem uma versão nossa que não sabe mais como agir no próprio tempo livre. Vamos correr e, no meio do treino, já pensamos no conteúdo que aquilo pode virar. Lemos um livro e, antes de terminar o capítulo, já postamos a foto de um trecho que chamou atenção ou escrevemos sobre a lição que tiramos daquilo. Os hobbies agora cumprem uma função no currículo virtual.

Cozinhar, viajar, pintar ou qualquer outra atividade vira algo que uma parte de nós aproveita, mas a outra está calculando como transformar aquilo em prova de que somos uma pessoa interessante e completa. Essa divisão faz parte de um conflito interno em resposta a um mercado que "premia" quem age desse jeito.

Nosso cotidiano virou um grande currículo invisível, aquele que revela no profissional o que não aparece no diploma, que é a sua disciplina, sua criatividade, seu comportamento e sua forma de pensar.

Segundo uma matéria da Exame, o Future of Jobs Report, do Fórum Econômico Mundial, competências como criatividade, pensamento analítico e aprendizado contínuo estão entre as mais valorizadas para os próximos anos, e boa parte delas se desenvolve no lazer. O recado que chega é que tudo que fazemos por prazer agora conta pontos.
 

Os hobbies deixaram de ser pra se distrair e viraram trabalho


O problema começa no momento exato em que os hobbies param de ser vividos e passam a ser projetados. A série Emily in Paris, da Netflix, é o retrato perfeito dessa dinâmica. A protagonista chega a Paris encantada de verdade, come o croissant, passeia, fica encantada com as novidades e mostra tudo isso nas redes sociais.

Emily monetiza os próprios hobbies (Imagem: Reprodução / Netflix)


Mas o que no começo era algo despretensioso, logo virou parte do seu trabalho. Ela não vive mais o momento pelo momento, pois no segundo seguinte o celular já está na mão, a comida vira foto no ângulo perfeito, o passeio vira conteúdo, o gosto pessoal vira argumento pra fechar cliente. E todo o lazer dela é sequestrado pela produtividade o tempo todo.

Emily tem hobbies de verdade, e é isso que sustentaria uma imagem interessante de forma honesta. O problema é que ela nunca deixa esses hobbies existirem por si só. Em vez de viver e ocasionalmente compartilhar, ela vive já compartilhando, e aí a projeção corre na frente da própria vida.

Qual o problema de viver performando? 


Você mostra uma vida rica pra fora enquanto por dentro nem viveu ela direito, porque estava ocupado registrando. E aqui vem a parte que quase ninguém calcula, que é o fato do público saber exatamente o que estamos fazendo. A plateia virtual sente a diferença entre a foto espontânea e a foto pensada pra impressionar.

O post da maratona com texto longo de superação corporativa gera menos conexão do que uma observação simples e verdadeira, porque soa ensaiado e pensado exatamente pra aquela ocasião. Essa é a causa do cansaço coletivo crescente com quem transforma cada minuto em conteúdo.

Esse cansaço vira uma leitura silenciosa de que essa pessoa está sempre atuando de maneira performática. O que era pra te fazer parecer interessante começa a te fazer parecer incapaz de desligar do universo virtual.
 

O ponto de equilíbrio está em viver primeiro e postar depois


Quando percebemos que estamos imersos nessa dinâmica, o ponto de equilíbrio não está em sumir das redes nem esconder os hobbies. É só inverter a ordem: primeiro vivemos as experiências completas, sem celular, pelo prazer dela. Se no dia seguinte sobrar um aprendizado que valha a pena dividir, aí sim vale a pena escrever.

Cena de Emily in Paris (Imagem: Reprodução / Netflix)

 
Os hobbies existem com a sua própria função de entreter, e a publicação é só um reflexo maduro dele, não o motivo de ter feito. Ajuda separar o que somos do que fazemos.

Pegando o exemplo da experiência de uma maratona, podemos compartilhar sobre o processo que levou ao resultado, as micrometas que nos ajudaram a treinar, mas nada engaja mais do que uma foto despretensiosa só pra mostrar nossos gostos sem a obrigação de tirar uma lição de tudo. O foco sai do conhecimento que pode servir a alguém a qualquer custo.

Nem todo momento nosso precisa render uma lição pros outros, às vezes ele vale só por ter sido nosso. Às vezes o gosto genuíno comunica mais do que qualquer lição que a gente force em cima dele.
 

O que as marcas enxergam nessas performances


Do lado das marcas, quem contrata está de olho nos bastidores da vida cotidiana, mas não espera ver um feed de influenciador. Ele observa a coerência e a humanidade não performáticas de um perfil comum: uma foto do cachorro, do prato, da viagem de fim de semana, da vida em família ou entre amigos.

Cena de Emily in Paris (Imagem: Reprodução / Netflix)

 
Isso comunica que nós, como profissionais, somos pessoas tridimensionais, com quem dá pra trabalhar, e isso gera mais empatia que qualquer conteúdo focado em agregar ao currículo. O que soa mal é o oposto, o perfil onde tudo é performance calculada, onde os hobbies viram oportunidade de mostrar seus cases ou provar sua competência fora da empresa.

Isso denuncia alguém que não desliga, e quem não desliga preocupa, porque sinaliza a exaustão performática que o mercado começa a evitar. O profissional mais desejável é o que tem uma vida de verdade e deixa isso aparecer sem esforço, não é o que transforma cada minuto livre numa grande vitrine de captação de novos leads.

No fim, o que nos torna interessantes é viver as experiências, não performar que está vivendo, e a diferença entre essas duas coisas é percebida de forma muito clara não apenas pelos recrutadores, mas também por todos os seguidores, familiares e amigos, e as consequências impactam diretamente na nossa credibilidade.