Por que Quem Ama Cuida supera Vale Tudo e Três Graças na publicidade?
A Globo mudou as regras do merchandising nas novelas das nove, e Quem Ama Cuida virou a primeira a mostrar como essa mudança se reflete na prática. Agora a presença de uma marca precisa de justificativa dentro da trama.
Além disso, um mesmo anunciante não pode se repetir no capítulo, e as ações ficam separadas por pelo menos três dias. Essas alterações vieram depois de duas novelas mostrarem, cada uma do seu jeito, o que acontece quando a publicidade atropela a história.
Vale Tudo, o remake de 2025, errou pela quantidade exagerada. A publicidade era tanta que ia se acumulando, principalmente na reta final, a ponto de a protagonista Raquel aparecer em capítulos quase só pra cumprir merchandising, com um levantamento apontando 38% das cenas dela em ações comerciais num período.
O caso mais comentado foi o Afonso, hospitalizado e debilitado, elogiando produtos de uma marca de sabão pelo celular durante uma cena dramática. O público sentiu que era algo forçado na mesma hora.
A publicidade tinha virado mais importante que o conflito, e o incômodo chegou até a família Marinho, que cobrou a direção. Quando a marca corre na frente da história desse jeito, o espectador para de assistir à novela e passa a assistir ao anúncio.
A última novela das nove, Três Graças, errou de um jeito mais sutil. Em uma das publicidades, a marca Britânia escolheu tudo certo: a novela sobre três gerações de mulheres, o mote de Dia das Mães, o território do cuidado que passa de mãe pra filha. Mas aí colocou as três protagonistas na cozinha citando liquidificador e air fryer enquanto os homens esperavam à mesa.
O problema é que a novela existe justamente pra questionar esse estereótipo da mulher que serve. A execução reforçou o padrão que a história combatia. As falas soaram roteirizadas porque eram roteirizadas pra citar produto, não pra servir à cena. A marca escolheu o espaço certo, mas não aproveitou com coerência o próprio valor da narrativa e também forçou a barra.
Quem Ama Cuida vem fazendo as marcas entrarem no ritmo da história, não o contrário. Quando a Vivo apareceu, foi numa cena em que a personagem Pilar destrói tudo num ataque de fúria e só o modem sobra intacto, com a piada de que perder a calma tudo bem, mas ficar sem internet é impossível.
Já a Eudora, que tem uma personagem pra chamar de sua na novela, entrou pela memória olfativa, o perfume marcando o reencontro do casal formado pela sua representante, a personagem da atriz Mariana Ximenes. Em nenhum dos dois casos, a trama parou pra vender e a marca virou parte da cena.
A diferença entre os três casos é que, enquanto Vale Tudo errava na quantidade e Três Graças errava na coerência, e Quem Ama Cuida vem acertando porque respeita tanto o ritmo ideal quanto o sentido da história.
A publicidade que funciona é a que serve ao contexto do personagem, não a que usa o personagem como suporte de anúncio. Tanto que dava pra salvar a cena da Britânia com uma fala verossímil, alguém dizendo que mãe até gostaria de ganhar um eletrodoméstico, sem três produtos citados como "obrigação". A marca deve entrar onde o uso dela faz sentido.
Nenhuma marca consegue forçar presença num ambiente sem quebrar a harmonia dele. O consumidor rejeita quem tenta dobrar o espaço pra se favorecer. O princípio vale pra qualquer marca, muda só a escala. Enquanto as grandes devem questionar se o produto cabe na cena da novela sem parecer uma venda velada, as pequenas devem seguir pelo mesmo caminho nas redes sociais.
Seja num story, reels ou em qualquer post no Instagram, se o produto só aparece porque você parou tudo pra anunciar, ninguém assiste com prazer. Preste atenção na rotina e quem consome e encaixe a marca onde ela já estaria naturalmente. Escreva a publicidade como se fosse um conteúdo que existiria mesmo sem o produto, e só então confira se ele cabe ali sem quebrar o clima.
Se precisar forçar, troque a abordagem, não force a marca. O modem da Vivo funcionou porque estava no meio da bagunça da casa, e o seu produto funciona quando aparece no meio do que seu público já veio ver.
Isso vale tanto pro profissional em início de carreira quanto pro sênior. Quando receber um projeto mal conduzido, um orçamento cortado ou um cliente difícil de quem veio antes, não gaste energia com o que você não pode mudar.
Mapeie o que sobrou de aproveitável, o recurso, o contrato, o prazo, e redesenhe a entrega em cima disso, como Quem Ama Cuida fez ao adaptar o modelo inadequado de publicidade das novelas anteriores pra dentro da própria trama.
Na prática, pegue o problema específico que caiu no seu colo, ache um único ponto onde a sua competência resolve, e tente "salvar" essa entrega, em vez de esperar as condições ideais que não chegam. Se adaptar a essas imperfeições é uma habilidade recompensada pelo mercado.
Além disso, um mesmo anunciante não pode se repetir no capítulo, e as ações ficam separadas por pelo menos três dias. Essas alterações vieram depois de duas novelas mostrarem, cada uma do seu jeito, o que acontece quando a publicidade atropela a história.
O excesso afundou a publicidade de Vale Tudo
Vale Tudo, o remake de 2025, errou pela quantidade exagerada. A publicidade era tanta que ia se acumulando, principalmente na reta final, a ponto de a protagonista Raquel aparecer em capítulos quase só pra cumprir merchandising, com um levantamento apontando 38% das cenas dela em ações comerciais num período.
O caso mais comentado foi o Afonso, hospitalizado e debilitado, elogiando produtos de uma marca de sabão pelo celular durante uma cena dramática. O público sentiu que era algo forçado na mesma hora.
A publicidade tinha virado mais importante que o conflito, e o incômodo chegou até a família Marinho, que cobrou a direção. Quando a marca corre na frente da história desse jeito, o espectador para de assistir à novela e passa a assistir ao anúncio.
Três Graças também teve erros de leitura antes de Quem Ama Cuida
A última novela das nove, Três Graças, errou de um jeito mais sutil. Em uma das publicidades, a marca Britânia escolheu tudo certo: a novela sobre três gerações de mulheres, o mote de Dia das Mães, o território do cuidado que passa de mãe pra filha. Mas aí colocou as três protagonistas na cozinha citando liquidificador e air fryer enquanto os homens esperavam à mesa.
O problema é que a novela existe justamente pra questionar esse estereótipo da mulher que serve. A execução reforçou o padrão que a história combatia. As falas soaram roteirizadas porque eram roteirizadas pra citar produto, não pra servir à cena. A marca escolheu o espaço certo, mas não aproveitou com coerência o próprio valor da narrativa e também forçou a barra.
Como Quem Ama Cuida está acertando nas publicidades?
Quem Ama Cuida vem fazendo as marcas entrarem no ritmo da história, não o contrário. Quando a Vivo apareceu, foi numa cena em que a personagem Pilar destrói tudo num ataque de fúria e só o modem sobra intacto, com a piada de que perder a calma tudo bem, mas ficar sem internet é impossível.
Já a Eudora, que tem uma personagem pra chamar de sua na novela, entrou pela memória olfativa, o perfume marcando o reencontro do casal formado pela sua representante, a personagem da atriz Mariana Ximenes. Em nenhum dos dois casos, a trama parou pra vender e a marca virou parte da cena.
A diferença entre os três casos é que, enquanto Vale Tudo errava na quantidade e Três Graças errava na coerência, e Quem Ama Cuida vem acertando porque respeita tanto o ritmo ideal quanto o sentido da história.
A publicidade que funciona é a que serve ao contexto do personagem, não a que usa o personagem como suporte de anúncio. Tanto que dava pra salvar a cena da Britânia com uma fala verossímil, alguém dizendo que mãe até gostaria de ganhar um eletrodoméstico, sem três produtos citados como "obrigação". A marca deve entrar onde o uso dela faz sentido.
Para marcas: o contexto é mais importante que a citação explícita da marca
Nenhuma marca consegue forçar presença num ambiente sem quebrar a harmonia dele. O consumidor rejeita quem tenta dobrar o espaço pra se favorecer. O princípio vale pra qualquer marca, muda só a escala. Enquanto as grandes devem questionar se o produto cabe na cena da novela sem parecer uma venda velada, as pequenas devem seguir pelo mesmo caminho nas redes sociais.
Seja num story, reels ou em qualquer post no Instagram, se o produto só aparece porque você parou tudo pra anunciar, ninguém assiste com prazer. Preste atenção na rotina e quem consome e encaixe a marca onde ela já estaria naturalmente. Escreva a publicidade como se fosse um conteúdo que existiria mesmo sem o produto, e só então confira se ele cabe ali sem quebrar o clima.
Se precisar forçar, troque a abordagem, não force a marca. O modem da Vivo funcionou porque estava no meio da bagunça da casa, e o seu produto funciona quando aparece no meio do que seu público já veio ver.
Para carreiras: abrace as demandas "tortas" em vez de esperar o plano perfeito
Isso vale tanto pro profissional em início de carreira quanto pro sênior. Quando receber um projeto mal conduzido, um orçamento cortado ou um cliente difícil de quem veio antes, não gaste energia com o que você não pode mudar.
Mapeie o que sobrou de aproveitável, o recurso, o contrato, o prazo, e redesenhe a entrega em cima disso, como Quem Ama Cuida fez ao adaptar o modelo inadequado de publicidade das novelas anteriores pra dentro da própria trama.
Na prática, pegue o problema específico que caiu no seu colo, ache um único ponto onde a sua competência resolve, e tente "salvar" essa entrega, em vez de esperar as condições ideais que não chegam. Se adaptar a essas imperfeições é uma habilidade recompensada pelo mercado.
